ATL 2026 ocupa Brasília e cobra demarcação, proteção territorial e respeito aos povos indígenas

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Brasília segue ocupada por nossos parentes nesta semana. O Acampamento Terra Livre 2026, realizado de 5 a 11 de abril no Eixo Cultural Ibero-Americano, chega à sua 22ª edição como a maior mobilização indígena do país e volta a dizer, sem rodeio, o que o Brasil insiste em empurrar para depois: sem terra demarcada e protegida, não existe futuro justo para os povos indígenas nem para o próprio país.

Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o ATL deste ano reúne milhares de lideranças de todas as regiões. As estimativas variam conforme a fonte, mas a mobilização gira em torno de 7 mil participantes, com presença de mais de 200 povos. O tema escolhido para 2026 — “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós” — não veio para enfeitar cartaz. Ele resume o que está em disputa: nossos territórios seguem pressionados por mineração, grandes empreendimentos, agronegócio, madeireiras e projetos políticos que tratam a terra como mercadoria.

Quem tenta reduzir o ATL a barraca, faixa e marcha não entendeu o que está acontecendo. O acampamento é um território de articulação política erguido no centro do poder. A programação desta edição foi organizada em torno de debates sobre memória, verdade e justiça, direito originário, política indigenista, clima, participação eleitoral e defesa dos territórios. No meio disso tudo, o recado foi direto: nossos direitos não estão à venda e não podem seguir sendo negociados em gabinetes, comissões e balcões de interesse.

Terra continua sendo o centro da luta

O coração do ATL continua sendo a demarcação. E não por insistência retórica, mas porque a demora do Estado continua custando caro nos territórios. Segundo a APIB, até março deste ano, cerca de 76 Terras Indígenas já estavam prontas para homologação e dependiam apenas da assinatura do presidente Lula. Outras 34 aguardavam portaria do Ministério da Justiça. Para o movimento indígena, isso mostra que há processos maduros, estudos concluídos e comunidades esperando uma decisão que segue travada.

Do lado do governo, o balanço apresentado nesta semana aponta avanços importantes desde 2023, com a homologação de 20 territórios indígenas e a assinatura de 21 portarias declaratórias. Esses passos existem e precisam ser reconhecidos. Mas quem está no ATL deixa claro que o ritmo segue muito abaixo do necessário. Nos territórios, demora não é detalhe burocrático. Demora vira invasão, conflito, ameaça, criminalização e morte.

Foi por isso que a marcha de 9 de abril, com o lema “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”, teve um peso tão grande dentro da mobilização. O ato cobrou decisão política concreta e ainda homenageou lideranças assassinadas em conflitos fundiários. Mais uma vez, nossos parentes precisaram ir a Brasília lembrar ao Estado o que já deveria estar sendo tratado como prioridade absoluta.

Congresso segue como frente de ataque

Se a cobrança ao Executivo é por agilidade, o enfrentamento ao Congresso é por defesa imediata. No dia 7, a marcha “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda” colocou na rua uma denúncia que atravessa todo o ATL: existe uma ofensiva organizada para restringir demarcações, enfraquecer garantias constitucionais e abrir Terras Indígenas à exploração econômica.

Segundo a APIB, ao menos seis frentes anti-indígenas têm risco de avançar em 2026. Entre elas estão a PEC 48/2023, que tenta colocar o marco temporal na Constituição; os projetos que buscam sustar demarcações em Santa Catarina e na Bahia; o grupo de trabalho do Senado voltado à mineração em Terras Indígenas; o PL 6050/2023, que amplia a exploração econômica nesses territórios; e o PL 6093/2023, chamado pelo movimento de “PL do Agro”, que cria novos entraves e submete ainda mais o processo demarcatório ao jogo político do Congresso.

O problema não é só jurídico. É material. Cada proposta dessa ajuda a manter nossos territórios sob pressão e fortalece quem lucra com a invasão, a grilagem, a destruição ambiental e a violência contra as comunidades. Quando o movimento indígena diz que o Congresso atua contra os povos, não está exagerando. Está lendo o que está sendo articulado, votado e empurrado em Brasília.

ATL 2026 também fala de clima, mineração e eleição

O ATL deste ano não ficou restrito à pauta da demarcação, embora ela continue sendo central. A mobilização também vem conectando território, clima e disputa política nacional. Logo na abertura da cobertura, a SUMAÚMA destacou dois eixos atravessando o acampamento: o avanço da mineração sobre os territórios e a disputa eleitoral de 2026. A própria APIB reforçou essa linha ao lançar, nesta sexta-feira, a Campanha Indígena 2026, apresentada como parte do esforço para aldear a política e ampliar a presença indígena nos espaços institucionais.

Esse debate não nasceu do nada. Nos últimos anos, o movimento indígena ampliou sua presença no cenário político sem abandonar o território como base de tudo. O ATL 2026 mostra isso mais uma vez. A luta não está só em barrar retrocessos, mas também em disputar projeto de país, narrativa pública e representação política.

Ao mesmo tempo, os povos indígenas também trouxeram ao centro do acampamento um recado claro sobre a crise climática. No dia 9, durante o ATL, foi apresentada uma proposta global pela eliminação dos combustíveis fósseis, com defesa de zonas livres de exploração e reconhecimento dos territórios indígenas como parte estratégica da resposta climática. A mensagem é simples de entender: não existe transição energética justa se ela passar por cima dos povos e abrir novos caminhos de destruição dentro dos nossos territórios.

Mais do que presença, o ATL marca posição

A cobertura internacional também mostrou que o que acontece em Brasília não é assunto menor. A Associated Press registrou que milhares de indígenas de mais de 200 grupos marcharam na capital contra violações territoriais e contra a pressão de atividades extrativas como mineração, exploração madeireira e expansão agropecuária. A reportagem também lembrou o contexto recente de violência, incluindo os ataques sofridos por comunidades Pataxó na Bahia.

Isso ajuda a dimensionar o tamanho real do ATL 2026. Não se trata de um encontro simbólico para “marcar presença” em abril. Trata-se de uma mobilização nacional que denuncia a permanência da violência nos territórios, cobra decisões do Estado e apresenta caminhos construídos pelos próprios povos indígenas para o país e para o mundo.

Até esta sexta-feira, 10 de abril, a APIB ainda publicou reivindicações dirigidas ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário. O gesto tem peso político. Mostra que o ATL não fala com um único poder nem aceita ser tratado como assunto setorial. Os povos indígenas estão cobrando o Estado inteiro.

O que nossos parentes fazem em Brasília, mais uma vez, é lembrar ao país que direito indígena não depende de favor, boa vontade de ocasião nem cálculo eleitoral. A Constituição reconheceu esses direitos, mas o Brasil continua falhando em cumpri-los. É por isso que o ATL segue necessário.

O acampamento vai até 11 de abril, mas a mensagem já ficou dada. Sem demarcação, sem proteção territorial e sem respeito aos povos originários, o discurso de democracia, soberania e justiça vira só palavra vazia. E os povos indígenas, como sempre, seguem dizendo isso de corpo presente, com luta, memória e organização.

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