ATL 2026 chega ao dia 10 com marchas, cobrança por demarcação e denúncia contra mineração e marco temporal

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Da chegada das delegações ao Eixo Cultural Ibero-Americano às marchas contra o Congresso e pela demarcação, o Acampamento Terra Livre 2026 acumulou, até esta sexta-feira (10), pressão sobre os três Poderes, denúncia do avanço da mineração sobre os territórios e lançamento de novas frentes de luta política e climática.

O ATL 2026 chega ao dia 10 reafirmando o que os povos indígenas vêm dizendo há muitos anos: sem demarcação e sem proteção territorial, o Brasil segue falhando com seus primeiros povos. A 22ª edição do Acampamento Terra Livre acontece de 5 a 11 de abril, em Brasília, no Eixo Cultural Ibero-Americano, com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”. A mobilização reúne milhares de parentes de todas as regiões; a previsão da organização ficou entre 7 mil e 8 mil participantes, e a APIB e o Cimi registraram cerca de 7 mil indígenas de mais de 200 povos já nos primeiros dias do acampamento.

O ATL começou no dia 5 com a montagem do acampamento, um ato no Eixão sob o lema “A Resposta Somos Nós” e a reza tradicional de acolhimento das delegações. No dia 6, vieram a plenária de abertura, a apresentação das delegações, a escuta das organizações regionais e a plenária sobre memória, verdade e justiça para os povos indígenas. Foi também nesse começo que a carta de abertura do ATL chamou a sociedade brasileira e a comunidade internacional para se somarem à luta e dirigiu reivindicações aos três Poderes da República.

Marcha contra o Congresso marcou a semana

No dia 7, o acampamento saiu em marcha pela Esplanada com a palavra de ordem “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”. O alvo não foi escolhido por efeito de linguagem, mas por causa do que está em tramitação. A APIB aponta ao menos seis frentes anti-indígenas com risco de avanço em 2026: a PEC 48 do marco temporal, PDLs contra demarcações, o grupo de trabalho da mineração em Terras Indígenas, o PL 6.050/2023 e o PL 6.093/2023, entre outras iniciativas. A marcha deixou claro que o movimento indígena segue vendo o Congresso como uma frente ativa de ataque aos direitos originários.

A pressão sobre o Congresso vem acompanhada de um alerta jurídico e político. O STF rejeitou a tese do marco temporal em setembro de 2023 e voltou a considerar inconstitucional, em dezembro de 2025, trecho da Lei 14.701/2023 que institui essa tese. Mesmo assim, o Senado aprovou a PEC 48/2023 em 9 de dezembro de 2025 e a proposta foi remetida à Câmara, onde continuava em tramitação em março de 2026. Por isso o marco temporal seguiu no centro das falas, das faixas e das denúncias do ATL nesta semana.

Mineração e corpo-território também estiveram no centro

No dia 8, o ATL aprofundou os debates internos. A programação oficial trouxe discussões regionais, a plenária “Respeitem os corpos e os territórios das mulheres indígenas; ancestralidade é força, território é vida” e outra mesa sobre o movimento indígena brasileiro na luta socioambiental. O acampamento mostrou mais uma vez que a defesa territorial não está separada da luta das mulheres indígenas, da memória dos povos e da proteção da vida coletiva.

No mesmo dia, a APIB lançou um relatório dizendo que existem mais de 1.300 requerimentos minerários incidentes sobre Terras Indígenas na Amazônia, dos quais 390 têm sobreposição total, e denunciou o avanço do lobby mineral sobre os territórios e sobre as instituições. O dado reforçou uma das denúncias mais fortes do ATL 2026: a pressão sobre os territórios não vem só pela violência direta, mas também pela caneta, pelo processo administrativo e pela articulação política de quem quer liberar exploração onde não deveria haver sequer ameaça.

Marcha pela demarcação cobrou resposta do governo

O dia 9 juntou duas frentes que atravessam o ATL 2026 inteiro: demarcação e disputa política. Pela manhã, a programação previa plenárias sobre o PL 6.132/2025, que trata da criação da Universidade Indígena Federal e da Política Nacional Indígena, e sobre a Campanha Indígena. À tarde, a marcha “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida” cobrou avanço real nas homologações.

Segundo a APIB, 76 Terras Indígenas estavam prontas para homologação e outras 34 dependiam de portaria do Ministério da Justiça. Esses números deram peso concreto à cobrança feita nas ruas. Para quem vive o território, demarcação não é promessa de campanha nem gesto simbólico. É condição de existência, de segurança e de continuidade.

No mesmo dia, lideranças indígenas apresentaram também uma proposta global pela eliminação dos combustíveis fósseis e pela criação de zonas livres de exploração. Com isso, o ATL reafirmou outra coisa importante: os povos indígenas não aparecem só denunciando a destruição. Também apresentam caminho, proposta e horizonte político diante da crise climática.

Balanço do governo não encerra a cobrança

Do lado do governo federal, representantes presentes no ATL apresentaram um balanço dizendo que, desde 2023, houve 20 territórios homologados, 21 declarados e 31 reservas constituídas, além de 44 grupos de trabalho de identificação e 17 relatórios de identificação e delimitação. Esses números mostram que houve retomada institucional, mas não encerram a cobrança feita no acampamento.

O movimento segue dizendo que o ritmo continua abaixo do necessário e que a demora do Estado pesa primeiro sobre quem está no território, enfrentando invasão, ameaça, garimpo, desmatamento e violência. Em Brasília, os parentes deixaram isso claro mais uma vez: avanço existe, mas ainda está longe do tamanho da urgência.

Dia 10 foi de síntese, pressão e recado aos três Poderes

Nesta sexta-feira, 10 de abril, o ATL entrou no dia dedicado ao balanço da relação do governo brasileiro com os povos indígenas, à apresentação das sínteses das organizações regionais e à leitura do documento final prevista para o fim da tarde. Ao longo do dia, a APIB também publicou textos com reivindicações dirigidas ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário, além de lançar uma nova mensagem da Campanha Indígena para 2026.

O recado é que o ATL não está falando com um poder só: está cobrando o Estado inteiro. E até aqui, o principal do ATL 2026 foi isso: os povos voltaram a ocupar Brasília com corpo, memória, reza, denúncia e proposta. Marcharam contra o Congresso, cobraram demarcação do governo, responderam ao marco temporal, denunciaram o avanço da mineração, puxaram o debate climático para o centro e reafirmaram que território não é ativo de mercado. É vida, é continuidade, é futuro.

Foi isso que os parentes disseram nestes dias todos: não estamos em Brasília para pedir favor. Estamos aqui para lembrar ao país de uma obrigação que ele segue tentando adiar.

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